Eu poderia dizer que o episódio, cujo cenário girava em torno de um livro com a missão de encorajar mulheres, teria sido uma demonstração quase didática sobre a coragem masculina. Mas o que aquele homem fez foi violência. Opressão disfarçada de apreço e devoção. E deve ter saído dali convicto de que seria o assunto da noite na casa de cada uma das mulheres na plateia — no que provavelmente acertou.
O que ele certamente não calculou, ao menosprezar nossa perspicácia, é que naqueles instantes de eternidade todas nós lemos com clareza a ilustração burlesca de quanto os homens ainda se sentem à vontade para silenciar vozes femininas, como se ainda vivêssemos no Século XIX. Passamos séculos decorando a ladainha, tivemos tempo para o letramento.
Por outro lado, nesse mesmo período os homens precisaram se mover pouco ou quase nada. Enquanto ampliamos nossa participação no mercado de trabalho, conquistamos autonomia financeira e a liberdade para decidir sobre nossos corpos e nossas vidas, são exceções os que compreenderam a dinâmica dos acontecimentos, e menos ainda os que tentaram se situar em meio a ela.
O mundo mudou e a ideia de ser homem não acompanhou as transformações. Minto: o homem não acompanhou. Foi uma escolha, não uma fatalidade. Enquanto a masculinidade ainda se ancora em prover e exercer autoridade, mesmo quando isso já não encontra correspondência na realidade social, econômica e afetiva do presente, a mulher não teve alternativa senão seguir se transformando.
Há séculos as mulheres se agasalham. Se escutam, se nutrem, se ajudam. Revezam-se. Não deixam ninguém para trás. Tocam suas feridas, admitem dores, constroem força com o tecido de suas vulnerabilidades. Não conhecem zona de conforto — e talvez por isso não se dêem ao luxo da estagnação.
Enquanto isso, homens fazem guerras. Agarram-se a qualquer brecha para preservar um modelo de masculinidade ultrapassado, acreditando que ali está sua fortaleza, quando é justamente a ameaça. Não por inocência, mas por recusa: mantêm os olhos atentos aos defeitos do mundo e desviam o olhar de si mesmos. Por não se julgarem no direito de sentir, sequer nomeiam as próprias emoções. E essa confusão semântica escorre para as atitudes.
Com a saúde mental apoiada na dependência emocional de uma figura feminina e pressionados por um ideal de desempenho impossível, muitos homens projetam na mulher o inimigo que não ousam reconhecer em si. Qualquer contato com a fragilidade ameaça a própria identidade. É como alimentar uma doença autoimune: o corpo passa a atacar a si mesmo — e quem estiver por perto.
A masculinidade não se transformou com a sociedade. O resultado são homens adoecidos que evitam contato com suas próprias questões, como se ignorá-las fosse uma forma de cura. Não é preciso metáfora sofisticada: é o homem que foge do médico, dos exames, do diagnóstico. O problema é que esse autoengano não fere apenas quem o pratica.