Gosto de ir ao teatro para tirar férias do meu próprio enredo. Sou do tipo que ri alto ou chora compulsivamente, protegida pelo escuro da plateia. Enquanto os atores estão em cena, deixo minha vida de lado e entro na trama. Desapareço por alguns instantes, junto com a minha realidade. Assistir a uma peça é um exercício de entrega, um recurso para não deixar a vida cair no automático.
Quando o espetáculo termina, entro em cena com o resto da plateia. A hora do aplauso é a deixa para o público, o momento em que expresso o quanto fui tocada pela verdade da história, como sofri e me apaixonei junto com os personagens. Celebro ali não o fim, mas o acontecimento. Rendo minhas homenagens a quem se expôs e sustentou o papel até o final. Confesso o que me arrebatou. Aplaudo para estender meu alumbramento, para que o sentimento não me escape. Preencher o teatro com o barulho das palmas é a esperança de eternizar o que me atravessa.
Num momento raro de presença, o diálogo entre público e palco opera a mágica de fazer o tempo parar. E fazer o tempo parar é um gesto cada vez mais raro.
Numa sociedade em que tudo é acelerado, a virada do calendário parece ainda mais apressada. Uma correria que vem de fora cobra de nós o próximo ato, o próximo plano, a próxima versão de nós mesmos. Fazemos listas, metas, promessas — como se o que passou tivesse sido apenas um ensaio geral.
A ideia de recomeçar é tão atraente quanto enganosa. A cultura do descartável convida a eliminar e esquecer o que foi vivido, como quem joga fora uma folha de rascunho sem valor. A ideia é de ruptura, não de construção. Uma crença infantil de que tudo vai ser diferente porque será inédito.
Fascinados por datas e limites imaginários, romantizamos os começos e demonizamos os fins. Apressamo-nos em desistir do que estava em curso em nome do que está prestes a começar. Como se um estivesse desconectado do outro. Como se o valor morasse sempre no que ainda não chegou, nunca no que nos sustentou até aqui. Como se as falhas do ano passado fossem provas de incompetência, e não da vida acontecendo.
Há um drama nos desfechos que faz a vida parecer mesmo um espetáculo. Mas, se a ideia é trazer para a realidade a magia da ficção, deveríamos começar pelos aplausos. Dedicar um tempo para sentir, sem anestesia. Reverenciar, agradecer, celebrar o que passou — antes de abrir novamente as cortinas.
Nenhum novo ato começa do nada. Ele nasce do palco que já foi pisado. O que ficou não é entulho, é fundamento. Segue conosco no que nos lapidou e transformou.
O gesto de grudar os olhos na tela do celular tem o mesmo sentido — e o mesmo perigo. O novo que está na tela parece mais precioso do que a vida que acontece do lado de cá. Cabe a cada um traçar o limite entre a vida de verdade e a imagem idealizada. Entre a imperfeição do que passou e a idealização do que ainda não aconteceu.